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04/11/2008 01:18
As origens do medo que toma conta da sociedade contemporânea
(Transcrição do Sem Fronteiras, programa transmitido pela Globo News)

Sílio Bocanerra - A crise financeira provoca medo. O terrorismo provoca medo. Crime, violência urbana também. Mudança de clima, ameaças do espaço, doenças novas, buracos negros, asteróides - tudo isso deixa o cidadão moderno em clima de permanente ansiedade diante de ameaças à sua volta.

Jorge Pontual - Aqui nos Estados Unidos, diante da crise financeira, a primeira reação do presidente Bush foi invocar outro medo que o governo dele adotou e que andava meio esquecido: o medo do terrorismo internacional.

Sandra Passarinho - Uma pesquisa feita pelo Instituto italiano [i>Sensis[/i> em dez metrópoles revela que quase 98% da população de São Paulo sofre de medo e ansiedade. O Sem Fronteiras de hoje procura entender a relação entre medo, poder, controle político e manipulação no mundo contemporâneo.

Sílio Boccanera - A tormenta financeira internacional que abala os mercados provoca mais do que perda nos valores das ações das Bolsas de Valores e aperto de crédito nos bancos. O noticiário dramático sobre a situação da economia como um todo provoca medo nas populações dos países mais afetados. Até mesmo entre aqueles que não investem ou especulam no mercado. Isso porque as análises costumam apontar para conseqüências catastróficas, que vão desde de perda de emprego à falência de fundo de aposentadoria - danos que alcançam muito mais gente. Acena-se até com manchetes escandalosas sobre o fim de um país - a endividada Islândia -, apesar da história de outros países, como a Argentina, que já foram dados como liquidados há poucos anos e se recuperaram.
Esses diagnósticos assustadores podem refletir uma realidade provável ou apenas uma ameaça remota. Mas seu resultado prático é o aumento da cessação de medo e insegurança, que dominam as sociedades modernas. Medo de bancarrota e desemprego, medo de crime ou violência, de terrorismo, mudança de clima, ataque nuclear, choque de asteróide... A lista é extensa, e varia na época e no local.
Os atuais habitantes de Roma, por exemplo, revelam medo de imigrantes, sobretudo ciganos e africanos, que têm chegado em quantidade. Quem vive em Tóquio revela medo de terremotos acima de tudo; moscovitas apontam perda de emprego como seu fantasma maior; moradores do Cairo citam a perda de entes queridos como o principal temor. Os mais velhos sofrem mais de medo do que os mais novos, as mulheres mais do que os homens, os pobres mais do que os ricos.
Estes são resultados de uma pesquisa internacional com cinco mil entrevistados em dez grandes cidades pelo mundo - incluindo Londres, Nova Iorque e São Paulo. Foi realizada pelo Instituto Sensis e os números foram apresentados em Roma durante conferência recente sobre o tema. Paranóia? Imaginação exagerada? Ou preocupação justificada?
Tudo isso junto respondem os especialistas no assunto - de sociólogos a psicanalistas -, que citam ainda a manipulação do medo por políticos interessados em votos ou popularidade. Seja o governo americano com sua obssessiva pregação antiterrorista agora, ou anticomunista num passado recente; também o atual governo do italiano Silvio Berllusconi, indeferente aos discursos xenófobos de que os imigrantes são responsáveis pelos problemas do país. No Reino Unido, a direita e os tablóides de escândalos, estimulam o medo do crime e da violência crescentes, apesar das estatísticas que provam uma tendência oposta na sociedade.
Para discutir essa questão, o Sem Fronteiras foi à Universidade de Kent, na Inglaterra, conversar com o professor de Sociologia, Frank Furedi.
Sílio Boccanera - Em seus livros, especialmente este, A Cultura do Medo, o senhor dala sobre este fenêomeno do medo na sociedade. O senhor acha que atual crise financeira se encaixa nesta cultura do medo?
Frank Furedi - Acho que sim, de várias formas. Especialmente, o que acontece é que a linguagem do medo que surgiu nos últimos dez a quinze anos, foi reciclada para iluminar o que aconteceu nos mercados. Por exemplo, é extremamente interessante o modo como a preocupação com catástrofes ambientais criou uma linguagem que agora está sendo usada para o mundo das finanças. Falamos sobre coisas como dívida tóxica, hedgefunds tóxicos, derretimento do sistema, tsunamis financeiros e bancários. Acho especialmente interessante esta linguagem naturalista do medo simplesmente encontrou um novo foco para sua ambição. O sistema financeiro e bancário foram incorporados a esta linguagem.
SB - Como o senhor também menciona, quando se lida com medo coletivo, lida-se com muita manipulação. No caso da crise financeira, o senhor também considera que há manipulação?
FF - Acho que sim, no sentido de que as pessoas transmitem notícias ruins, focam as notícias ruins em empresas específicas que estão falidas, isto facilita os processos de uma empresa assumir a outra, facilita a manipulação do mercado de certas ações através da crise de confiança praticamente criada cosncientemente. Mas além disto, a linguagem do medo no que se refere às finanças não corresponde necessariamente à realidade do medo. Dá para notar que quando a Bolsa de Londres entrou em crise, havia todas estas matérias sobre pessoas entrando em pânico e quando minha pesquisadora saiu para ver o que estava acontecendo, as pessoas estavam tomando cerveja, estavam rindo talvez até de maneira meio desesperada, mas mesmo assim, a vida seguia, não era como se fosse o fim do mundo.
SB - Quando o senhor fala do medo como um fenômeno cultural, em que outras áreas também cai sobre nós?
FF - Interessante notar que nos últimos 20 anos, quase todas as experiências humanas estão sob alerta. Portanto, quando se pensa que tudo desde nossa saúde, à comida que comemos, nossos filhos experiências de andar pelas ruas, com o medo de crime, às grandes ameaças globais como gripe aviária, abuso de crianças, terrorismo, aquecimento global e outras questões ambientais, todos são dramatizados para se encaixar nesta história do medo. A meu ver o que mudou, o que parece extremamente interessante, é que até recentemente, sentíamos medo sozinhos. Isto significava que você e eu temíamos coisas diferentes. Você poderia se preocupar com terrorismo, eu com crime e alguém poder ter amedo da ameaça da gripe aviária. O medo era um sentimento solitário. Agora, pela primeira vez em muito tempo, a crise financeira global perturba a cabeça de todo mundo.
SB - Quando pensa nas lideranças políticas e na cultura do medo, há intenção deles em manipular e usar este medo em benefício próprio?
FF - Historicamente, desde quando Maquiavel escreveu “O Príncipe”, os políticos usam a carta do medo para tentar passar determinadas leis, para conquistar o apoio do público. Mas o interessante é que em muitos casos, o que é chamado de política do medo não é conscientemente manipulado, mas vivenciado pelos próprios políticos e com muita freqüência quando você fala com estas figuras públicas elas estão até mais apavoradas do que o público. Isto não quer dizer que os políticos não usem isto.

No despertar do século XXI, alguns podem se sentir tentados a assumir que a ameaça (do terrorismo) diminuiu. Embora possa parecer reconfortante, seria um erro apostar nisso.
George Walker Bush

Quando falou à Assembléia Geral da ONU, em setembro, Bush preferiu recorrer a um velho fantasma: o medo do terrorismo. Os líderes mundiais reunidos na ONU só tinham uma preocupação: a crise causada pela falência em série de bancos americanos. Mas Bush ainda estava ligado na retórica antiterror, que lhe rendia popularidade no passado, e agora não tem mais o menor efeito. Quando, finalmente, acordou para a crise, Bush passou a falar quase diariamente do que ele descreveu como “esta ansiedade que alimenta a ansiedade”. Os americanos sentiram falta de um líder como Franklin Roosevelt, que tirou o país da Grande Depressão, nos anos 30. Quando Roosevelt tomou posse em março de 1933, usou uma frase que entrou para a História: “Me permitam afirmar com firmeza que a única coisa de que devemos ter medo é o próprio medo!” Roosevelt percebeu que o pânico paralisa e o próprio medo se torna o maior inimigo.
Já Bush, nos últimos dias de uma presidência desastrosa, parece paralisado pela ansiedade. Mas continua a usar o medo como arma política.
Na campanha pela sucessão de Bush, os candidatos também exploram a política do medo. John McCain e a candidata a vice, Sarah Palin, acusam Obama de ser amigo de um ex-terrorista americano, Bill Ayers, líder de um grupo que fez atentados a bomba nos anos 60 e 70.
Obama, por sua vez, embarcou na guerra contra o terrorismo e promete caçar Osama Bin Laden.
O Sem Fronteiras conversou com o ativista político, Nick Frayan, que esteve a frente de um movimento contra a Guerra ao Terror e o uso do medo para fins políticos.

Jorge Pontual - Como o tema da política do medo está se deslocando do terrorismo para o pânico financeiro. O que o senhor acha?
Nick Frayan - Acho que assistimos um fenômeno em que a política está sendo atropelada por um sentimento de pânico. Por isso, nos dizem que é preciso aprovar o pacote (de salvação dos bancos) imediatamente, caso contrário vamos nos dissolver. Assim, os políticos conseguem passar por cima de certas discussões, não nos perguntamos mais de quem é a culpa pelo que aconteceu. Não pensamos em outras possibilidades, não nos perguntamos a quem este projeto beneficia, afirmamos que a não ser que façamos isto agora, a catástrofe tomará conta. Isto é muito representativo da política do medo, se parece com o que vimos na guerra contra o terror, com o Ato Patriótico nos Estados Unidos, e várias medidas adotadas a partir de 11 de setembro, quando nossos políticos repetiam: deixem as providências conosco, vocês têm que confiar na gente, vamos fazer o que tem que ser feito. Nenhuma discussão mais abrangente sobre o assunto teria nos colocado em maior risco ou nos deixado menos seguros do que estávamos.
JP - É tão transparente, como o medo é usado e explorado pela política, mas pessoas caem, e tem esse medo inconsciente rondando, algo quase irresistível. O que está acontecendo na prática com este medo que não depende da realidade?
NF - Acho que são tendências diferentes. Uma , é que nossa liderança é toda muito cúmplice, então aoposição freqüentemente também assume a posição da política do medo. Quando observamos a oposição democrata à guerra contra o terror verificamos que tendia a acusar os republicanos por nos deixarem inseguros, muito mais do que criticava a guerra ao terror num sentido mais amplo; afirmavam que não deveríamos confiar nos republicanos e que os democratas lutariam melhor contra o terror. Ambos adotaram a linguagem do medo e ambos se dirigiram à sociedade na mesma forma: vocês precisam de nós, precisam nos seguir sem questionar o que estamos fazendo, caso contrário ficarão sem segurança. Ao mesmo tempo, há forças que impelem para a alienação social, forças que alienam a população, certamente desde a guerra ao terror, talvez desde a Guerra Fria, ou mesmo durante, os políticos se alimentam desta alienação, muito mais do que tentaram produzir lideranças que superassem a alienação do povo. Em vez de apostar na união das pessoas, apostaram na atomização e individualização na sociedade.
JP - Uma coisa que tem sido lembrada, é a famosa frase de Roosevelt: “Não temos nada a temer, a não ser o próprio medo”. Ele se referia à Grande Depressão. Como interpretar essa frase? Não ouvimos mais este tipo de apelo, certo?
NF - Verdade, o sentimento de Roosevelt de que não temos nada do que ter medo, a não ser do próprio medo, é muito poderoso. Poderia potencialmente ser uma contrapartida à política do medo que permeia nossa sociedade hoje em dia. É a liderança que seria boa se nossos líderes contemporâneos assumissem que deveríamos ter uma ampla discussão sobre o tema, que podemos confiar nos nossos políticos para nos encaminhar para ultrapassarmos este problema, se ter que acenar o tempo todo com uma ameaça iminente. Roosevelt estava dizendo que a política poderia superar aquele problema, e que naquele sentido não estava acenando com um jogo de tudo ou nada, estilo me sigam ou entraremos em crise. Ele dizia que juntos, através de algum tipo de coesão social, superariam aquele problema específico. Acho que é isto que está faltando hoje. Pensei que você fosse mencionar uma frase de Donald Rumsfeld - “não há o que temer além do desconhecimento dos desconhecidos”. Foi num discurso logo depois de 11 de setembro. Dizia: “Há coisas que sabemos e há coisas que sabemos que não sabemos. E ainda há o desconhecimento dos desconhecidos.” Este é um exemplo muito bom da retorica da política contemporânea. Há coisas que não sabemos, por isto deveríamos confiar no que não sabemos, devemos ir em frente, implicitamente nos diz que devemos concordar com as propostas do governo caso os desconhecimentos desconhecidos se materializem.

Sandra Passarinho - Sacrificar a liberdade em nome da segurança é comum no quotidiano dos brasileiros que vivem nas cidades. O medo deixa marcas visíveis e transforma bairros inteiros em imensas prisões. É quase impossível entrar num prédio ou casa de classe média sem ser observado por uma câmera. Também é difícl; reconhecer alguém num automóvel indevassável, com vidros escuros. Aumenta o número de pessoas que têm carro blindado ao preço de um apartamento: R$ 70 mil, em média. Crianças ricas são proibidas de andar de ônibus por causa dos assaltos e só saem de casa acompanhadas. O cerco de medo vai se fechando. Aqui no Rio de Janeiro, há regiões em que nem a polícia entra - com medo dos traficantes. Em outras, o cidadão só pode votar livremente nestas eleições sob a proteção do Exército. Crianças deixam de freqüentar as aulas quando o tráfico determina. E o comércio muitas vezes é fechado por ordem dos bandidos. Nessas regiões há uma outra lei, paralela, que submete através do medo e do poder das armas.
Para expulsar o tráfico dos morros, a polícia do Rio de Janeiro troca tiros com bandidos e, por descuido, também mata inocentes. Só nos primeiros quatro meses deste ano, morreram mais de quinhentas pessoas vítimas desse fogo cruzado.
Seguranças particulares muitas vezes contribuem para aumentar o medo e a insegurança. Recentemente, na porta de uma boate na Zona Sul do Rio, um rapaz morreu baleado por um policial militar cedido ao Ministério Público para proteger o filho de uma juíza.
Segundo dados da UNESCO, o Brasil é o país com maior taxa de homicídios no mundo. Quarenta e seis mil e seiscentas pessoas assassinadas em 2006: quase todas moradoras das cidades mais violentas.
Mas a violência, muitas vezes, é usada para justificar a manipulação do medo.
Conversamos com o psicanalista, Joel Birman, autor do estudo “Medo e Insegurança como estratégia de poder”.

Joel Birman - Olha, do ponto de vista estritamente psicanalítico, o medo advém de uma experiência básica de desemparo psíquico que todos nós temos, em função do fato de que o homem nasce biologicamente despreparado para vida, para a coordenação do seu corpo. Só que essa espécie de fragilidade biológica, não nos deixa numa condição de nominar completamente esse nosso desamparo originário, digamos assim. De maneira que nós estamos sempre com medo de voltarmos a esse desamparo, que tem sempre no nosso imaginário uma dimensão de que nós podemos perecer ou morrer a qualquer momento em função disso.
Sandra Passarinho - O nosso desamparo pode ser manipulado pelo poder político e daí vem o medo?
JB - Sempre que nós nos encontramos diante de uma situação de crise social, sempre que nós nos encontramos diante do fato de que novos segmentos sociais querem participar, ter maior poder social, uma das estratégias usadas na tradição do Ocidente e no Brasil, em particular, é evocar o medo latente, esse medo do desemparo que vai evidentemente ganhar modulações sociais e culturais específicas. No Brasil, e no Rio de Janeiro em particular, a existência de populações favelizadas, a existência de populações que vivem sob o controle do narcotráfico permitiu, em função desse tipo de medo, que o Estado fizesse vista grossa em relação ao surgimento e ao fortalecimento das milícias. Houve uma espécie de utilização política, de governantes do Rio de Janeiro inclusive, onde essa situação se faz mais aguda, no sentido de amedrontar as pessoas. A solução brasileira para isso é sempre a solução do aumento da repressão, seja militar, ou seja policial. Então, você pode perceber como o medo é um elemento crucial na luta e no combate político. Sempre em função do medo que o poder quando quer fazer avanços substantivos nos seus processos de dominação, ele utiliza esse tipo de estratégia para apavorar as pessoas.
SP - O cidadão do século XXI (21) ele é mais medroso do que o de outros tempos?
JB - Com certeza. O cidadão do século XXI tem mais medo do que o cidadão de outras épocas, exatamente porque vive numa sociedade menos e menos totalizante holística, ele vive numa sociedade cada vez mais individualista, ele não conta mais com a proteção de um Estado que lhe dê governabilidade, que lhe proteja inteiramente. Ele, então, é exposto a perigos e, em última instância, ele tem de contar consigo próprio. Razão pela qual essa metáfora dos cuidados corporais, essa medicalização contemporânea que a gente vive é tão importante porque nós cuidados do nosso corpo na ginastica, da mesma forma como nós temos de andar, nos temos que diminuir a nossa taxa de colesterol, nós temos de fazer check-up a cada seis meses. Quer dizer, é como se nós só contássemos com o nosso corpo. Então, esse nível de experiência de risco é uma experiência eminentemente contemporânea, num nível radical, que não existiu em épocas anteriores. E ela tem se produzido nos últimos trinta, quarenta anos de uma maneira progressiva.

Jorge Pontual - As autoridades manipulam o medo com fins políticos. Mas a relação entre o medo e o poder pode ser mais sutil. Afinal, políticos também sentem medo e transmitem sua insegurança para a sociedade. Faltam líderes com a coragem de Franklin Roosevelt para dizer: “Não temos nada a temer a não ser o próprio medo”.
enviada por Lucília Lopes Silva






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