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08/11/2008 17:06
O texto abaixo foi por mim publicado originalmente no Jornal de Debates
Nós temos alguns sonhos - Yes, We Can!
O dia seguinte: será que, realmente, ainda podemos?
Fui dormir às 4:20 da manhã, já no dia seguinte àquele em que tudo começou - 4 de outubro -, depois de ter assistido a mais um capítulo impressionante da História deste novo milênio.
Durante muitos meses, um homem foi construindo sobre si mesmo a personificação da esperança de grande parte da humanidade. Milhões de cidadãos da nação que inaugurou este novo milênio como a hiperpotência mundial foram - voluntariamente - às urnas para eleger esse homem como seu novo líder. O nome desse homem? Barack Obama.
Mais do que a eleição de um negro, foi a eleição de alguém que traz em si mesmo a diversidade racial - já que Barack Obama é filho de uma mulher branca e de um homem negro. Obama entendeu que ele não poderia ser a expressão única e exclusiva do pensamento de um só de seus troncos raciais ascendentes - pois, ele mesmo, é o resultado da união de dois povos, de duas raças - aparentemente opostas, separadas tão-só pelo preconceito. A eleição de Obama simboliza para o mundo também o aglutinamento de raças que, afinal, só são diferenciadas e separadas para fins sócio/políticos.
A eleição de Barack Obama, filho de uma união inter-racial, também pode ajudar a difundir a conscientização em cada cidadão americano de que os Estados Unidos são o resultado da união de caucasianos, negros, latinos, orientais: ou seja, - E Pluribus Unun - De Muitos (povos, de muitas raças,de muitas culturas), Um (único povo, uma única nação).
O mundo espera que com a eleição de Obama o termo - globalizar - deixe de significar o mundo para os EUA e passe a ser - os EUA pelo mundo: ou seja, que da maior nação do mundo emane uma política não mais de confronto, não mais de guerra (inclusive e, principalmente, injustificadas, injustas, ilegais, imorais), uma política não mais de rapinagem - mas uma política de aproximação, de diplomacia em prol da paz, uma política que privilegie a sustentabilidade em seus diversos aspectos - econômico, social, cultural, ambiental. O mundo espera que a expressão mundo globalizado passe a significar que toda a vida planetária, que todos os recursos naturais deixem de servir aos caprichos de uma só nação - ou só de Wall Street - e passe a beneficiar todas as nações, todas as avenidas, todas as ruas e vielas do mundo.
Foi muito interessante ver a bandeira dos EUA, não mais queimada em várias partes do mundo - por haver se tornado um símbolo principal de uma série de administrações arrogantes, agressoras e usurpadoras das riquezas de outras nações -, mas carregada, empunhada por cidadãos das mais diferentes nações como um novo símbolo de esperança.
Foi impressionante ver a esfuziante alegria de africanos, as lágrimas de emoção de uma senhora no distante Japão, a comemoração em vários países europeus. Jovens, velhos, orientais, judeus, árabes, latino-americanos, europeus - nos EUA e nas várias nações deste mundo globalizado - se uniram para comemorar o renascimento da esperança nos EUA.
Durante grande parte do século passado e início deste, várias administrações norte-americanas do partido republicano se mostraram eminentemente bélicas, arrogantes, megalomaníacas, excessivamente dispendiosas e, por isso mesmo, agressoras, usurpadoras das riquezas de outras nações. Mas invadir e se apoderar, por fraude ou violência, das riquezas de outros povos não garantiu a opulência ambicionada. E o grande império - a nação mais rica do mundo - submergiu numa gigantesca crise financeira.
Os EUA sabem que nenhuma superpotência garante sua supremacia sobre todas as demais tão-somente com o seu poderio militar, seu poderio bélico: esse poder tem de estar associado ao poderio econômico.
Com a eleição de um afro-descendente, os EUA tentam começar a corrigir suas inúmeras injustiças do passado. Sim, porque durante os mais de duzentos anos de sua história, aquela que nasceu como promessa de ser a terra das oportunidades foi se distanciando de seus próprios sonhos, de seus princípios originários e passou a ser a terra de onde promanam os piores pesadelos. De repente, descobrimos nos EUA o Grande Irmão, aquela nação que, através de discursos, de argumentos aparentemente lógicos, destruiam a liberdade, desconstruiam direitos civis, para impor, colocar acima dos sonhos, dos direitos arduamente conquistados ao longo de séculos - o medo, a divisão dos povos, das classes sociais, a intolerância racial e religiosa. Sob o argumento de combater o terror, os EUA passaram a ser, eles mesmos, o principal agente do terror em todo o mundo. Na luta por um mundo livre, os EUA já promoveram perseguições implacáveis, prisões ilegais, torturas cruéis, chacinas de grupos civis, assassinatos brutais até de crianças. Milhões de pessoas justas, inocentes foram assassinadas nessa guerra para impor a todas as nações "a democracia de Washington". Assim, a democracia deixou de ser o governo - do povo, pelo povo e para o povo - para ser a tirania de pequenos grupos sobre toda a população mundial.
Depois do fatídico 11 de setembro, os verdadeiros interesses de toda a humanidade foram esmagados pelos interesses egoístas desses pequenos grupos, que se apossaram do gigantesco poder mediático e bélico dos EUA para difundir o medo, eleger inimigos da humanidade e promover injustiças impensáveis em pleno século XXI. Neste dia 4 de novembro de 2008, a população americana fez um enorme esforço para tentar enterrar os EUA da administração Bush, que se tornaram motivo de vergonha para seus próprios cidadãos. Sim, muitos cidadãos americanos, quando no exterior, já não declaravam sua verdadeira nacionalidade. E se omitiam ou mentiam sobre sua nacionalidade não por medo - mas por vergonha.
Nos últimos anos, os cidadãos norte-americanos foram obrigados a entender que os piores inimigos dos EUA não estavam no exterior, não vinham de uma religião não-cristã, não falavam um idioma ininteligível, nem tinham cor ou fisionomia alienígena: os piores inimigos dos EUA haviam de apossado do maior poder dentro do território americano e estavam alojados na Casa Branca e no Congresso americano.
Eleger um candidato não só do principal partido de oposição, mas aquele que simboliza minorias é a última e derradeira tentativa de romper não só a barreira racial - mas a barreira de uma única e mesma forma de administrar a mais poderosa nação dos últimos cem anos. Sim, é com a esperança de uma administração que traga novos conceitos, novas formas de administrar os vários mercados (de ações, de commodities etc.); novas formas de resolver divergências, conflitos entre nações, e que retire, enfim os EUA desse atoleiro, desse rebaixamento moral em que se tornaram as invasões do Iraque e do Afeganistão - que, ao invés de segurança, trouxeram muito mais inseguranças e incertezas para os norte-americanos, que, ao invés de opulência ou, pelo menos, abastança, originaram enormes déficits, interno e externo.
A espera de milhões de americanos em longas filas, às vezes até sob chuva e frio, para votar - voluntariamente - foi uma demonstração de que uma população pode vencer o medo e retomar o poder - que é do povo- das mãos de impostores como George Walker Bush, que assumem o poder popular - e que pelo povo e para o povo deve ser exercido - para a satisfação dos interesses egoístas de pequenos grupos que visam eternamente lucros excessivos, rapinadores, isto é, ladrões que através ardis ou violências (inclusive assassinatos), se apoderam das riquezas de outras nações militarmente frágeis, de bilhões de pessoas em todo mundo que confiavam na honestidade das instituições comandadas por aqueles grupos.
A eleição de Barack Obama, para o povo americano, foi, talvez, a última tentativa de vencer o fundamentalismo conservador que dominou a política americana, principalmente nos últimos oito anos, impondo uma forma de governar extremamente agressiva - que contrariou o que os próprios EUA representavam para si mesmos e para o mundo. Para o mundo, é a esperança de uma administração que se mostre realmente nova, renovadora, que não pense apenas no controle dos poços de petróleo árabes, nem na proteção única e exclusiva de Israel; que não permita nem promova massacres nos países do chamado Terceiro Mundo.
A pergunta, entretanto, é: será que diante das gigantescas injustiças que perpetraram no decorrer de sua História, os EUA ainda podem transformar seus sonhos em realidade? Ou já estariam a reboque de seu próprio passado?
Por enquanto, a eleição de Barack Obama é tão-só - uma esperança - de que a mudança, desta vez, seja real e para melhor. Porque Obama já mostrou que é um grande orador. Porém, ainda iremos constatar se Barack Obama, ao longo do seu mandato, terá competência para transformar seu próprio discurso em realidade. Principalmente, iremos constatar se, diante dos imensos desafios, ele não irá negar os princípios que afirmou serem o seu norte, se não desistirá dos sonhos que levou não só seus concidadãos, mas cidadãos de várias outras nacionalidades a sonhar. Ou seja, o tempo mostrará se o - Obama presidente - não se transformará numa antítese dos discursos, das idéias do - Obama candidato...
enviada por Lucília Lopes Silva
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