*@*Livre Pens@r Livre*@*

01/10/2009 20:33
Todos temos preconceitos. Como o preconceito é filho da ignorância, todos nós nascemos com essa mácula. Dela só nos livramos com o saber. Observe-se que não é o conhecimento adquirido nas faculdades que nos liberta do preconceito, pois este é ministrado por pessoas que ainda não conseguiram se desvencilhar de seus próprios preconceitos. Assim sendo, não raro, os alunos ao invés de se libertar de seus próprios preconceitos, adquirem outros... Muitas vezes, mais perniciosos...
Os cursos de graduação têm primado por uma qualidade cada vez mais inferior no que concerne à formação do ser humano. Por consequência, o que vemos são profissionais despreparados não só para exercer a profissão, mas para lidar com o ser humano. Precisamente por não ter desenvolvido o respeito ao ser humano, ele não se prepara profissionalmente de modo adequado, pois o paciente é só sua “fonte de dinheiro”. Ou seja, o paciente ou o cliente chega ao consultório ou escritório de qualquer um desses “profissionais” e a opinião que ele tem sobre aquela pessoa é que se trata de “algo” do qual ele deve extrair o máximo do ganho pecuniário. Isso é uma idéia preconcebida, fundada num mal entendimento do que é o capitalismo. Porque se não atendemos adequadamente nosso cliente ou paciente, as chances dele retornar a nós tornam-se nulas. Assim, em menos de um ano, o consultório ou escritório está fechado ou já foi repassado. E, assim, o sonho de tornar senhor de grande capital se esvai.
O preconceito está, portanto, na base do fracasso humano seja nas suas relações pessoais, sociais, nos relacionamentos com colegas e fornecedores da empresa, ou nas de trabalho liberal.
O preconceito não gera sofrimento apenas para quem dele é alvo, mas sério prejuízo para quem o desfecha. Muitas vezes seria daquele contra quem nutrimos prevenção que viria a salvação da nossa “lavoura”, a resposta para uma questão que jamais encontraremos sozinhos ou entre aqueles com quem simpatizamos.
Mas o ser humano progride, evolui: quem sabe daqui a um trilhão de anos já não teremos aprendido essa lição?
enviada por Lucília Lopes Silva



20/01/2009 22:47
Discurso de Barack Obama em português

20.01.2009 - 21h17

Meus caros cidadãos:

Aqui estou hoje, humilde perante a tarefa à nossa frente, grato pela confiança que depositaram em mim, consciente dos sacrifícios que os nossos antepassados enfrentaram. Agradeço ao Presidente Bush pelo seu serviço à nossa nação, assim como a generosidade e a cooperação que demonstrou durante esta transição.

Quarenta e quatro americanos fizeram até agora o juramento presidencial. Os discursos foram feitos durante vagas de crescente prosperidade e águas calmas de paz. No entanto, muitas vezes a tomada de posse ocorre no meio de nuvens espessas e furiosas tempestades. Nesses momentos, a América perseverou não só devido ao talento ou à visão dos que ocupavam altos cargos mas porque Nós o Povo permanecemos fiéis aos ideais dos nossos antepassados e aos nossos documentos fundadores.

Assim tem sido. E assim deve ser com esta geração de americanos.

Que estamos no meio de uma crise, já todos sabem. A nossa nação está em guerra, contra uma vasta rede de violência e ódio. A nossa economia está muito enfraquecida, consequência da ganância e irresponsabilidade de alguns, mas também nossa culpa colectiva por não tomarmos decisões difíceis e prepararmos a nação para uma nova era. Perderam-se casas; empregos foram extintos, negócios encerraram. O nosso sistema de saúde é muito oneroso; para muita gente as nossas escolas falharam; e cada dia traz-nos mais provas de que o modo como usamos a energia reforça os nossos adversários e ameaça o nosso planeta.

Estes são indicadores de crise, resultado de dados e de estatística. Menos mensurável mas não menos profunda é a perda de confiança na nossa terra - um medo incómodo de que o declínio da América é inevitável, e que a próxima geração deve baixar as expectativas.

Hoje eu digo-vos que os desafios que enfrentamos são reais. São sérios e são muitos. Não serão resolvidos facilmente nem num curto espaço de tempo. Mas fica a saber, América - eles serão resolvidos.

Neste dia, unimo-nos porque escolhemos a esperança e não o medo, a unidade de objectivo e não o conflito e a discórdia

Neste dia, viemos para proclamar o fim dos ressentimentos mesquinhos e falsas promessas, as recriminações e dogmas gastos, que há tanto tempo estrangulam a nossa política.

Continuamos a ser uma nação jovem, mas nas palavras da Escritura, chegou a hora de pôr as infantilidades de lado. Chegou a hora de reafirmar o nosso espírito de resistência, de escolher o melhor da nossa história; de carregar em frente essa oferta preciosa, essa nobre ideia, passada de geração em geração; a promessa de Deus de que todos somos iguais, todos somos livres, e todos merecemos uma oportunidade de tentar obter a felicidade completa.

Ao reafirmar a grandeza da nossa nação, compreendemos que a grandeza nunca é um dado adquirido. Deve ser conquistada. A nossa viagem nunca foi feita de atalhos ou de aceitar o mínimo. Não tem sido o caminho dos que hesitam – dos que preferem o divertimento ao trabalho, ou que procuram apenas os prazeres da riqueza e da fama. Pelo contrário, tem sido o dos que correm riscos, os que agem, os que fazem as coisas – alguns reconhecidos mas, mais frequentemente, mulheres e homens desconhecidos no seu labor, que nos conduziram por um longo e acidentado caminho rumo à prosperidade e à liberdade.

Por nós, pegaram nos seus parcos bens e atravessaram oceanos em busca de uma nova vida.

Por nós, eles labutaram em condições de exploração e instalaram-se no Oeste; suportaram o golpe do chicote e lavraram a terra dura. Por nós, eles combateram e morreram, em lugares como Concord e Gettysburg; Normandia e Khe Sahn.

Tantas vezes estes homens e mulheres lutaram e se sacrificaram e trabalharam até as suas mãos ficarem ásperas para que pudéssemos viver uma vida melhor. Eles viram a América como maior do que a soma das nossas ambições individuais; maior do que todas as diferenças de nascimento ou riqueza ou facção.

Esta é a viagem que hoje continuamos. Permanecemos a nação mais poderosa e próspera na Terra. Os nossos trabalhadores não são menos produtivos do que eram quando a crise começou. As nossas mentes não são menos inventivas, os nossos produtos e serviços não são menos necessários do que eram na semana passada ou no mês passado ou no ano passado. A nossa capacidade não foi diminuída. Mas o nosso tempo de intransigência, de proteger interesses tacanhos e de adiar decisões desagradáveis – esse tempo seguramente que passou.

A partir de hoje, devemos levantar-nos, sacudir a poeira e começar a tarefa de refazer a América.

Para onde quer que olhamos, há trabalho paraa fazer. O estado da economia pede acção, corajosa e rápida, e nós vamos agir – não só para criar novos empregos mas para lançar novas bases de crescimento. Vamos construir estradas e pontes, redes eléctricas e linhas digitais que alimentam o nosso comércio e nos ligam uns aos outros.

Vamos recolocar a ciência no seu devido lugar e dominar as maravilhas da tecnologia para elevar a qualidade do serviço de saúde e diminuir o seu custo. Vamos domar o sol e os ventos e a terra para abastecer os nossos carros e pôr a funcionar as nossas fábricas. E vamos transformar as nossas escolas e universidades para satisfazer as exigências de uma nova era.

Podemos fazer tudo isto. E tudo isto iremos fazer. Há alguns que, agora, questionam a escala das nossas ambições – que sugerem que o nosso sistema não pode tolerar muitos planos grandiosos. As suas memórias são curtas. Esqueceram-se do que este país já fez; o que homens e mulheres livres podem fazer quando à imaginação se junta um objectivo comum, e à necessidade a coragem.

O que os cínicos não compreendem é que o chão se mexeu debaixo dos seus pés – que os imutáveis argumentos políticos que há tanto tempo nos consomem já não se aplicam. A pergunta que hoje fazemos não é se o nosso governo é demasiado grande ou demasiado pequeno, mas se funciona – se ajuda famílias a encontrar empregos com salários decentes, cuidados de saúde que possam pagar, pensões de reformas que sejam dignas. Onde a resposta for sim, tencionamos seguir em frente. Onde a resposta for não, programas chegarão ao fim.

E aqueles de nós que gerem os dólares do povo serão responsabilizados – para gastarem com sensatez, reformarem maus hábitos e conduzirem os nossos negócios à luz do dia – porque só então poderemos restaurar a confiança vital entre o povo e o seu governo.

Não se coloca sequer perante nós a questão se o mercado é uma força para o bem ou para o mal. O seu poder de gerar riqueza e de expandir a democracia não tem paralelo, mas esta crise lembrou-nos que sem um olhar vigilante o mercado pode ficar fora de controlo – e que uma nação não pode prosperar quando só favorece os prósperos. O sucesso da nossa economia sempre dependeu não só da dimensão do nosso Produto Interno Bruto, mas do alcance da nossa prosperidade; da nossa capacidade em oferecer oportunidades a todos – não por caridade, mas porque é o caminho mais seguro para o nosso bem comum.

Quanto à nossa defesa comum, rejeitamos como falsa a escolha entre a nossa segurança e os nossos ideais. Os nossos Pais Fundadores, face a perigos que mal conseguimos imaginar, redigiram uma carta para assegurar o estado de direito e os direitos humanos, uma carta que se expandiu com o sangue de gerações. Esses ideais ainda iluminam o mundo, e não vamos abdicar deles por oportunismo.

E por isso, aos outros povos e governos que nos estão a ver hoje, das grandes capitais à pequena aldeia onde o meu pai nasceu: saibam que a América é amiga de todas as nações e de todos os homens, mulheres e crianças que procuram um futuro de paz e dignidade, e que estamos prontos para liderar mais uma vez.

Recordem que as primeiras gerações enfrentaram o fascismo e o comunismo não só com mísseis e tanques mas com alianças sólidas e convicções fortes. Compreenderam que só o nosso poder não nos protege nem nos permite agir como mais nos agradar. Pelo contrário, sabiam que o nosso poder aumenta com o seu uso prudente; a nossa segurança emana da justeza da nossa causa, da força do nosso exemplo, das qualidades moderadas de humildade e contenção.

Nós somos os guardiões deste legado. Guiados por estes princípios uma vez mais, podemos enfrentar essas novas ameaças que exigem ainda maior esforço – ainda maior cooperação e compreensão entre nações. Vamos começar responsavelmente a deixar o Iraque para o seu povo, e a forjar uma paz arduamente conquistada no Afeganistão. Com velhos amigos e antigos inimigos, vamos trabalhar incansavelmente para diminuir a ameaça nuclear, e afastar o espectro do aquecimento do planeta.

Não vamos pedir desculpa pelo nosso modo de vida, nem vamos hesitar na sua defesa, e àqueles que querem realizar os seus objectivos pelo terror e assassínio de inocentes, dizemos agora que o nosso espírito é mais forte e não pode ser quebrado; não podem sobreviver-nos, e nós vamos derrotar-vos.

Porque nós sabemos que a nossa herança de diversidade é uma força, não uma fraqueza. Nós somos uma nação de cristãos e muçulmanos, judeus e hindus – e não crentes. Somos moldados por todas as línguas e culturas, vindas de todos os cantos desta Terra; e porque provámos o líquido amargo da guerra civil e da segregação, e emergimos desse capítulo sombrio mais fortes e mais unidos, não podemos deixar de acreditar que velhos ódios um dia passarão; que as linhas da tribo em breve se dissolverão; que à medida que o mundo se torna mais pequeno, a nossa humanidade comum deve revelar-se; e que a América deve desempenhar o seu papel em promover uma nova era de paz.

Ao mundo muçulmano, procuramos um novo caminho em frente, baseado no interesse mútuo e no respeito mútuo. Aos líderes por todo o mundo que procuram semear o conflito, ou culpar o Ocidente pelos males da sua sociedade – saibam que o vosso povo vos julgará pelo que construírem, não pelo que destruírem. Aos que se agarram ao poder pela corrupção e engano e silenciamento dos dissidentes, saibam que estão no lado errado da história; mas que nós estenderemos a mão se estiverem dispostos a abrir o vosso punho fechado.

Aos povos das nações mais pobres, prometemos cooperar convosco para que os vossos campos floresçam e as vossas águas corram limpas; para dar alimento aos corpos famintos e aos espíritos sedentos de saber. E às nações, como a nossa, que gozam de relativa riqueza, dizemos que não podemos mais mostrar indiferença perante o sofrimento fora das nossas fronteiras; nem podemos consumir os recursos do mundo sem prestar atenção aos seus efeitos. Porque o mundo mudou, e devemos mudar com ele.

Ao olharmos para o caminho à nossa frente, lembremos com humilde gratidão os bravos americanos que, neste preciso momento, patrulham desertos longínquos e montanhas distantes. Eles têm alguma coisa para nos dizer hoje, tal como os heróis caídos em Arlington fazem ouvir a sua voz. Honramo-los não apenas porque são guardiões da nossa liberdade, mas porque incorporam o espírito de serviço; uma vontade de dar significado a algo maior do que eles próprios. E neste momento – um momento que definirá uma geração – é este espírito que deve habitar em todos nós. Porque, por mais que o governo possa e deva fazer, a nação assenta na fé e na determinação do povo americano.

É a generosidade de acomodar o desconhecido quando os diques rebentam, o altruísmo dos trabalhadores que preferem reduzir os seus horários a ver um amigo perder o emprego que nos revelam quem somos nas nossas horas mais sombrias. É a coragem do bombeiro ao entrar por uma escada cheia de fumo, mas também a disponibilidade dos pais para criar um filho, que acabará por selar o nosso destino.

Os nossos desafios podem ser novos. Os instrumentos com que os enfrentamos podem ser novos. Mas os valores de que depende o nosso sucesso – trabalho árduo e honestidade, coragem e fair play, tolerância e curiosidade, lealdade e patriotismo – estas coisas são antigas. Estas coisas são verdadeiras. Têm sido a força silenciosa do progresso ao longo da nossa história. O que é pedido, então, é o regresso a essas verdades.

O que nos é exigido agora é uma nova era de responsabilidade – um reconhecimento, da parte de cada americano, de que temos obrigações para connosco, com a nossa nação, e com o mundo, deveres que aceitamos com satisfação e não com má vontade, firmes no conhecimento de que nada satisfaz mais o espírito, nem define o nosso carácter, do que entregarmo-nos todos a uma tarefa difícil.
Este é o preço e a promessa da cidadania.

Esta é a fonte da nossa confiança – o conhecimento de que Deus nos chama para moldar um destino incerto.

Este é o significado da nossa liberdade e do nosso credo – é por isso que homens e mulheres e crianças de todas as raças e todas as religiões se podem juntar em celebração neste magnífico mall, e que um homem cujo pai há menos de 60 anos não podia ser atendido num restaurante local pode agora estar perante vós a fazer o mais sagrado juramento.

Por isso, marquemos este dia com a lembrança do quem somos e quão longe fomos. No ano do nascimento da América, no mais frio dos meses, um pequeno grupo de patriotas juntou-se à beira de ténues fogueiras nas margens de um rio gelado. A capital tinha sido abandonada. O inimigo avançava. A neve estava manchada de sangue. No momento em que o resultado da nossa revolução era incerto, o pai da nossa nação ordenou que estas palavras fossem lidas ao povo:

“Que o mundo que há-de vir saiba que... num Inverno rigoroso, quando nada excepto a esperança e a virtude podiam sobreviver... a cidade e o país, alarmados com um perigo comum, vieram para [o] enfrentar.”

América. Face aos nossos perigos comuns, neste Inverno das nossas dificuldades, lembremo-nos dessas palavras intemporais. Com esperança e virtude, enfrentemos uma vez mais as correntes geladas e suportemos as tempestades que vierem. Que seja dito aos filhos dos nossos filhos que quando fomos testados recusámos que esta viagem terminasse, que não recuámos nem vacilámos; e com os olhos fixos no horizonte e a graça de Deus sobre nós, levámos adiante a grande dádiva da liberdade e entregámo-la em segurança às futuras gerações.
(Tradução: PÚBLICO)

Fonte:
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1356898&idCanal=11
enviada por Lucília Lopes Silva



12/01/2009 11:02
Quando, em qualquer site, aparecerem caracteres estranhos, vá até Exibir e, entre as alternativas apresentadas, aponte o cursor para Codificação. Se abrirão novas alternativas. A primeira é Ocidental(ISO-8859-1), a segunda Unicode (UTF-8). Escolha a que não estiver assinalada. Geralmente, a solução está entre essas duas alternativas.
enviada por Lucília Lopes Silva



08/11/2008 17:06
O texto abaixo foi por mim publicado originalmente no Jornal de Debates
Nós temos alguns sonhos - Yes, We Can!
O dia seguinte: será que, realmente, ainda “podemos”?


Fui dormir às 4:20 da manhã, já no dia seguinte àquele em que tudo começou - 4 de outubro -, depois de ter assistido a mais um capítulo impressionante da História deste novo milênio.

Durante muitos meses, um homem foi construindo sobre si mesmo a personificação da esperança de grande parte da humanidade. Milhões de cidadãos da nação que inaugurou este novo milênio como a hiperpotência mundial foram - voluntariamente - às urnas para eleger esse homem como seu novo líder. O nome desse homem? Barack Obama.

Mais do que a eleição de um negro, foi a eleição de alguém que traz em si mesmo a diversidade racial - já que Barack Obama é filho de uma mulher branca e de um homem negro. Obama entendeu que ele não poderia ser a expressão única e exclusiva do pensamento de um só de seus troncos raciais ascendentes - pois, ele mesmo, é o resultado da união de dois povos, de duas raças - aparentemente opostas, separadas tão-só pelo preconceito. A eleição de Obama simboliza para o mundo também o aglutinamento de raças que, afinal, só são diferenciadas e separadas para fins sócio/políticos.

A eleição de Barack Obama, filho de uma união inter-racial, também pode ajudar a difundir a conscientização em cada cidadão americano de que os Estados Unidos são o resultado da união de caucasianos, negros, latinos, orientais: ou seja, - E Pluribus Unun - De Muitos (povos, de muitas raças,de muitas culturas), Um (único povo, uma única nação).

O mundo espera que com a eleição de Obama o termo - globalizar - deixe de significar “o mundo para os EUA” e passe a ser - os EUA pelo mundo: ou seja, que da maior nação do mundo emane uma política não mais de confronto, não mais de guerra (inclusive e, principalmente, injustificadas, injustas, ilegais, imorais), uma política não mais de rapinagem - mas uma política de aproximação, de diplomacia em prol da paz, uma política que privilegie a sustentabilidade em seus diversos aspectos - econômico, social, cultural, ambiental. O mundo espera que a expressão “mundo globalizado” passe a significar que toda a vida planetária, que todos os recursos naturais deixem de servir aos caprichos de uma só nação - ou só de Wall Street - e passe a beneficiar todas as nações, todas as avenidas, todas as ruas e vielas do mundo.

Foi muito interessante ver a bandeira dos EUA, não mais queimada em várias partes do mundo - por haver se tornado um símbolo principal de uma série de administrações arrogantes, agressoras e usurpadoras das riquezas de outras nações -, mas carregada, empunhada por cidadãos das mais diferentes nações como um novo símbolo de esperança.

Foi impressionante ver a esfuziante alegria de africanos, as lágrimas de emoção de uma senhora no distante Japão, a comemoração em vários países europeus. Jovens, velhos, orientais, judeus, árabes, latino-americanos, europeus - nos EUA e nas várias nações deste mundo globalizado - se uniram para comemorar o renascimento da esperança nos EUA.

Durante grande parte do século passado e início deste, várias administrações norte-americanas do partido republicano se mostraram eminentemente bélicas, arrogantes, megalomaníacas, excessivamente dispendiosas e, por isso mesmo, agressoras, usurpadoras das riquezas de outras nações. Mas invadir e se apoderar, por fraude ou violência, das riquezas de outros povos não garantiu a opulência ambicionada. E o grande império - a nação mais rica do mundo - submergiu numa gigantesca crise financeira.

Os EUA sabem que nenhuma superpotência garante sua supremacia sobre todas as demais tão-somente com o seu poderio militar, seu poderio bélico: esse poder tem de estar associado ao poderio econômico.

Com a eleição de um afro-descendente, os EUA tentam começar a corrigir suas inúmeras injustiças do passado. Sim, porque durante os mais de duzentos anos de sua história, aquela que nasceu como promessa de ser a terra das oportunidades foi se distanciando de seus próprios sonhos, de seus princípios originários e passou a ser a terra de onde promanam os piores pesadelos. De repente, descobrimos nos EUA o Grande Irmão, aquela nação que, através de discursos, de argumentos aparentemente lógicos, destruiam a liberdade, desconstruiam direitos civis, para impor, colocar acima dos sonhos, dos direitos arduamente conquistados ao longo de séculos - o medo, a divisão dos povos, das classes sociais, a intolerância racial e religiosa. Sob o argumento de combater o terror, os EUA passaram a ser, eles mesmos, o principal agente do terror em todo o mundo. Na luta por um mundo “livre”, os EUA já promoveram perseguições implacáveis, prisões ilegais, torturas cruéis, chacinas de grupos civis, assassinatos brutais até de crianças. Milhões de pessoas justas, inocentes foram assassinadas nessa guerra para impor a todas as nações "a democracia de Washington". Assim, a democracia deixou de ser o governo - do povo, pelo povo e para o povo - para ser a tirania de pequenos grupos sobre toda a população mundial.

Depois do fatídico 11 de setembro, os verdadeiros interesses de toda a humanidade foram esmagados pelos interesses egoístas desses pequenos grupos, que se apossaram do gigantesco poder mediático e bélico dos EUA para difundir o medo, eleger “inimigos” da humanidade e promover injustiças impensáveis em pleno século XXI. Neste dia 4 de novembro de 2008, a população americana fez um enorme esforço para tentar enterrar os EUA da administração Bush, que se tornaram motivo de vergonha para seus próprios cidadãos. Sim, muitos cidadãos americanos, quando no exterior, já não declaravam sua verdadeira nacionalidade. E se omitiam ou mentiam sobre sua nacionalidade não por medo - mas por vergonha.

Nos últimos anos, os cidadãos norte-americanos foram obrigados a entender que os piores inimigos dos EUA não estavam no exterior, não vinham de uma religião não-cristã, não falavam um idioma ininteligível, nem tinham cor ou fisionomia alienígena: os piores inimigos dos EUA haviam de apossado do maior poder dentro do território americano e estavam alojados na Casa Branca e no Congresso americano.

Eleger um candidato não só do principal partido de oposição, mas aquele que simboliza minorias é a última e derradeira tentativa de romper não só a barreira racial - mas a barreira de uma única e mesma forma de administrar a mais poderosa nação dos últimos cem anos. Sim, é com a esperança de uma administração que traga novos conceitos, novas formas de administrar os vários mercados (de ações, de commodities etc.); novas formas de resolver divergências, conflitos entre nações, e que retire, enfim os EUA desse atoleiro, desse rebaixamento moral em que se tornaram as invasões do Iraque e do Afeganistão - que, ao invés de segurança, trouxeram muito mais inseguranças e incertezas para os norte-americanos, que, ao invés de opulência ou, pelo menos, abastança, originaram enormes déficits, interno e externo.

A espera de milhões de americanos em longas filas, às vezes até sob chuva e frio, para votar - voluntariamente - foi uma demonstração de que uma população pode vencer o medo e retomar o poder - que é do povo- das mãos de impostores como George Walker Bush, que assumem o poder popular - e que pelo povo e para o povo deve ser exercido - para a satisfação dos interesses egoístas de pequenos grupos que visam eternamente lucros excessivos, rapinadores, isto é, ladrões que através ardis ou violências (inclusive assassinatos), se apoderam das riquezas de outras nações militarmente frágeis, de bilhões de pessoas em todo mundo que confiavam na honestidade das instituições comandadas por aqueles grupos.

A eleição de Barack Obama, para o povo americano, foi, talvez, a última tentativa de vencer o fundamentalismo conservador que dominou a política americana, principalmente nos últimos oito anos, impondo uma forma de governar extremamente agressiva - que contrariou o que os próprios EUA representavam para si mesmos e para o mundo. Para o mundo, é a esperança de uma administração que se mostre realmente nova, renovadora, que não pense apenas no controle dos poços de petróleo árabes, nem na proteção única e exclusiva de Israel; que não permita nem promova massacres nos países do chamado Terceiro Mundo.

A pergunta, entretanto, é: será que diante das gigantescas injustiças que perpetraram no decorrer de sua História, os EUA ainda podem transformar seus sonhos em realidade? Ou já estariam a reboque de seu próprio passado?

Por enquanto, a eleição de Barack Obama é tão-só - uma esperança - de que a mudança, desta vez, seja real e para melhor. Porque Obama já mostrou que é um grande orador. Porém, ainda iremos constatar se Barack Obama, ao longo do seu mandato, terá competência para transformar seu próprio discurso em realidade. Principalmente, iremos constatar se, diante dos imensos desafios, ele não irá negar os princípios que afirmou serem o seu norte, se não desistirá dos sonhos que levou não só seus concidadãos, mas cidadãos de várias outras nacionalidades a sonhar. Ou seja, o tempo mostrará se o - Obama presidente - não se transformará numa antítese dos discursos, das idéias do - Obama candidato...
enviada por Lucília Lopes Silva



06/11/2008 22:23
Lembrando "Political World", de Bob Dylan
http://video.google.com/videoplay?docid=-1642257609386078300

Political World

We live in a political world,
Love don't have any place.
We're living in times where men commit crimes
And crime don't have a face

We live in a political world,
Icicles hanging down,
Wedding bells ring and angels sing,
clouds cover up the ground.

We live in a political world,
Wisdom is thrown into jail,
It rots in a cell, is misguided as hell
Leaving no one to pick up a trail.

We live in a political world
Where mercy walks the plank,
Life is in mirrors, death disappears
Up the steps into the nearest bank.

We live in a political world
Where courage is a thing of the past
Houses are haunted, children are unwanted
The next day could be your last.

We live in a political world.
The one we can see and can feel
But there's no one to check, it's all a stacked deck,
We all know for sure that it's real.

We live in a political world
In the cities of lonesome fear,
Little by little you turn in the middle
But you're never why you're here.

We live in a political world
Under the microscope,
You can travel anywhere and hang yourself there
You always got more than enough rope.

We live in a political world
Turning and a'thrashing about,
As soon as you're awake, you're trained to take
What looks like the easy way out.

We live in a political world
Where peace is not welcome at all,
It's turned away from the door to wander some more
Or put up against the wall.

We live in apolitical world
Everything is hers or his,
Climb into the frame and shout God's name
But you're never sure what it is.
enviada por Lucília Lopes Silva



04/11/2008 01:18
As origens do medo que toma conta da sociedade contemporânea
(Transcrição do Sem Fronteiras, programa transmitido pela Globo News)

Sílio Bocanerra - A crise financeira provoca medo. O terrorismo provoca medo. Crime, violência urbana também. Mudança de clima, ameaças do espaço, doenças novas, buracos negros, asteróides - tudo isso deixa o cidadão moderno em clima de permanente ansiedade diante de ameaças à sua volta.

Jorge Pontual - Aqui nos Estados Unidos, diante da crise financeira, a primeira reação do presidente Bush foi invocar outro medo que o governo dele adotou e que andava meio esquecido: o medo do terrorismo internacional.

Sandra Passarinho - Uma pesquisa feita pelo Instituto italiano [i>Sensis[/i> em dez metrópoles revela que quase 98% da população de São Paulo sofre de medo e ansiedade. O Sem Fronteiras de hoje procura entender a relação entre medo, poder, controle político e manipulação no mundo contemporâneo.

Sílio Boccanera - A tormenta financeira internacional que abala os mercados provoca mais do que perda nos valores das ações das Bolsas de Valores e aperto de crédito nos bancos. O noticiário dramático sobre a situação da economia como um todo provoca medo nas populações dos países mais afetados. Até mesmo entre aqueles que não investem ou especulam no mercado. Isso porque as análises costumam apontar para conseqüências catastróficas, que vão desde de perda de emprego à falência de fundo de aposentadoria - danos que alcançam muito mais gente. Acena-se até com manchetes escandalosas sobre o fim de um país - a endividada Islândia -, apesar da história de outros países, como a Argentina, que já foram dados como liquidados há poucos anos e se recuperaram.
Esses diagnósticos assustadores podem refletir uma realidade provável ou apenas uma ameaça remota. Mas seu resultado prático é o aumento da cessação de medo e insegurança, que dominam as sociedades modernas. Medo de bancarrota e desemprego, medo de crime ou violência, de terrorismo, mudança de clima, ataque nuclear, choque de asteróide... A lista é extensa, e varia na época e no local.
Os atuais habitantes de Roma, por exemplo, revelam medo de imigrantes, sobretudo ciganos e africanos, que têm chegado em quantidade. Quem vive em Tóquio revela medo de terremotos acima de tudo; moscovitas apontam perda de emprego como seu fantasma maior; moradores do Cairo citam a perda de entes queridos como o principal temor. Os mais velhos sofrem mais de medo do que os mais novos, as mulheres mais do que os homens, os pobres mais do que os ricos.
Estes são resultados de uma pesquisa internacional com cinco mil entrevistados em dez grandes cidades pelo mundo - incluindo Londres, Nova Iorque e São Paulo. Foi realizada pelo Instituto Sensis e os números foram apresentados em Roma durante conferência recente sobre o tema. Paranóia? Imaginação exagerada? Ou preocupação justificada?
Tudo isso junto respondem os especialistas no assunto - de sociólogos a psicanalistas -, que citam ainda a manipulação do medo por políticos interessados em votos ou popularidade. Seja o governo americano com sua obssessiva pregação antiterrorista agora, ou anticomunista num passado recente; também o atual governo do italiano Silvio Berllusconi, indeferente aos discursos xenófobos de que os imigrantes são responsáveis pelos problemas do país. No Reino Unido, a direita e os tablóides de escândalos, estimulam o medo do crime e da violência crescentes, apesar das estatísticas que provam uma tendência oposta na sociedade.
Para discutir essa questão, o Sem Fronteiras foi à Universidade de Kent, na Inglaterra, conversar com o professor de Sociologia, Frank Furedi.
Sílio Boccanera - Em seus livros, especialmente este, A Cultura do Medo, o senhor dala sobre este fenêomeno do medo na sociedade. O senhor acha que atual crise financeira se encaixa nesta cultura do medo?
Frank Furedi - Acho que sim, de várias formas. Especialmente, o que acontece é que a linguagem do medo que surgiu nos últimos dez a quinze anos, foi reciclada para iluminar o que aconteceu nos mercados. Por exemplo, é extremamente interessante o modo como a preocupação com catástrofes ambientais criou uma linguagem que agora está sendo usada para o mundo das finanças. Falamos sobre coisas como dívida tóxica, hedgefunds tóxicos, derretimento do sistema, tsunamis financeiros e bancários. Acho especialmente interessante esta linguagem naturalista do medo simplesmente encontrou um novo foco para sua ambição. O sistema financeiro e bancário foram incorporados a esta linguagem.
SB - Como o senhor também menciona, quando se lida com medo coletivo, lida-se com muita manipulação. No caso da crise financeira, o senhor também considera que há manipulação?
FF - Acho que sim, no sentido de que as pessoas transmitem notícias ruins, focam as notícias ruins em empresas específicas que estão falidas, isto facilita os processos de uma empresa assumir a outra, facilita a manipulação do mercado de certas ações através da crise de confiança praticamente criada cosncientemente. Mas além disto, a linguagem do medo no que se refere às finanças não corresponde necessariamente à realidade do medo. Dá para notar que quando a Bolsa de Londres entrou em crise, havia todas estas matérias sobre pessoas entrando em pânico e quando minha pesquisadora saiu para ver o que estava acontecendo, as pessoas estavam tomando cerveja, estavam rindo talvez até de maneira meio desesperada, mas mesmo assim, a vida seguia, não era como se fosse o fim do mundo.
SB - Quando o senhor fala do medo como um fenômeno cultural, em que outras áreas também cai sobre nós?
FF - Interessante notar que nos últimos 20 anos, quase todas as experiências humanas estão sob alerta. Portanto, quando se pensa que tudo desde nossa saúde, à comida que comemos, nossos filhos experiências de andar pelas ruas, com o medo de crime, às grandes ameaças globais como gripe aviária, abuso de crianças, terrorismo, aquecimento global e outras questões ambientais, todos são dramatizados para se encaixar nesta história do medo. A meu ver o que mudou, o que parece extremamente interessante, é que até recentemente, sentíamos medo sozinhos. Isto significava que você e eu temíamos coisas diferentes. Você poderia se preocupar com terrorismo, eu com crime e alguém poder ter amedo da ameaça da gripe aviária. O medo era um sentimento solitário. Agora, pela primeira vez em muito tempo, a crise financeira global perturba a cabeça de todo mundo.
SB - Quando pensa nas lideranças políticas e na cultura do medo, há intenção deles em manipular e usar este medo em benefício próprio?
FF - Historicamente, desde quando Maquiavel escreveu “O Príncipe”, os políticos usam a carta do medo para tentar passar determinadas leis, para conquistar o apoio do público. Mas o interessante é que em muitos casos, o que é chamado de política do medo não é conscientemente manipulado, mas vivenciado pelos próprios políticos e com muita freqüência quando você fala com estas figuras públicas elas estão até mais apavoradas do que o público. Isto não quer dizer que os políticos não usem isto.

No despertar do século XXI, alguns podem se sentir tentados a assumir que a ameaça (do terrorismo) diminuiu. Embora possa parecer reconfortante, seria um erro apostar nisso.
George Walker Bush

Quando falou à Assembléia Geral da ONU, em setembro, Bush preferiu recorrer a um velho fantasma: o medo do terrorismo. Os líderes mundiais reunidos na ONU só tinham uma preocupação: a crise causada pela falência em série de bancos americanos. Mas Bush ainda estava ligado na retórica antiterror, que lhe rendia popularidade no passado, e agora não tem mais o menor efeito. Quando, finalmente, acordou para a crise, Bush passou a falar quase diariamente do que ele descreveu como “esta ansiedade que alimenta a ansiedade”. Os americanos sentiram falta de um líder como Franklin Roosevelt, que tirou o país da Grande Depressão, nos anos 30. Quando Roosevelt tomou posse em março de 1933, usou uma frase que entrou para a História: “Me permitam afirmar com firmeza que a única coisa de que devemos ter medo é o próprio medo!” Roosevelt percebeu que o pânico paralisa e o próprio medo se torna o maior inimigo.
Já Bush, nos últimos dias de uma presidência desastrosa, parece paralisado pela ansiedade. Mas continua a usar o medo como arma política.
Na campanha pela sucessão de Bush, os candidatos também exploram a política do medo. John McCain e a candidata a vice, Sarah Palin, acusam Obama de ser amigo de um ex-terrorista americano, Bill Ayers, líder de um grupo que fez atentados a bomba nos anos 60 e 70.
Obama, por sua vez, embarcou na guerra contra o terrorismo e promete caçar Osama Bin Laden.
O Sem Fronteiras conversou com o ativista político, Nick Frayan, que esteve a frente de um movimento contra a Guerra ao Terror e o uso do medo para fins políticos.

Jorge Pontual - Como o tema da política do medo está se deslocando do terrorismo para o pânico financeiro. O que o senhor acha?
Nick Frayan - Acho que assistimos um fenômeno em que a política está sendo atropelada por um sentimento de pânico. Por isso, nos dizem que é preciso aprovar o pacote (de salvação dos bancos) imediatamente, caso contrário vamos nos dissolver. Assim, os políticos conseguem passar por cima de certas discussões, não nos perguntamos mais de quem é a culpa pelo que aconteceu. Não pensamos em outras possibilidades, não nos perguntamos a quem este projeto beneficia, afirmamos que a não ser que façamos isto agora, a catástrofe tomará conta. Isto é muito representativo da política do medo, se parece com o que vimos na guerra contra o terror, com o Ato Patriótico nos Estados Unidos, e várias medidas adotadas a partir de 11 de setembro, quando nossos políticos repetiam: deixem as providências conosco, vocês têm que confiar na gente, vamos fazer o que tem que ser feito. Nenhuma discussão mais abrangente sobre o assunto teria nos colocado em maior risco ou nos deixado menos seguros do que estávamos.
JP - É tão transparente, como o medo é usado e explorado pela política, mas pessoas caem, e tem esse medo inconsciente rondando, algo quase irresistível. O que está acontecendo na prática com este medo que não depende da realidade?
NF - Acho que são tendências diferentes. Uma , é que nossa liderança é toda muito cúmplice, então aoposição freqüentemente também assume a posição da política do medo. Quando observamos a oposição democrata à guerra contra o terror verificamos que tendia a acusar os republicanos por nos deixarem inseguros, muito mais do que criticava a guerra ao terror num sentido mais amplo; afirmavam que não deveríamos confiar nos republicanos e que os democratas lutariam melhor contra o terror. Ambos adotaram a linguagem do medo e ambos se dirigiram à sociedade na mesma forma: vocês precisam de nós, precisam nos seguir sem questionar o que estamos fazendo, caso contrário ficarão sem segurança. Ao mesmo tempo, há forças que impelem para a alienação social, forças que alienam a população, certamente desde a guerra ao terror, talvez desde a Guerra Fria, ou mesmo durante, os políticos se alimentam desta alienação, muito mais do que tentaram produzir lideranças que superassem a alienação do povo. Em vez de apostar na união das pessoas, apostaram na atomização e individualização na sociedade.
JP - Uma coisa que tem sido lembrada, é a famosa frase de Roosevelt: “Não temos nada a temer, a não ser o próprio medo”. Ele se referia à Grande Depressão. Como interpretar essa frase? Não ouvimos mais este tipo de apelo, certo?
NF - Verdade, o sentimento de Roosevelt de que não temos nada do que ter medo, a não ser do próprio medo, é muito poderoso. Poderia potencialmente ser uma contrapartida à política do medo que permeia nossa sociedade hoje em dia. É a liderança que seria boa se nossos líderes contemporâneos assumissem que deveríamos ter uma ampla discussão sobre o tema, que podemos confiar nos nossos políticos para nos encaminhar para ultrapassarmos este problema, se ter que acenar o tempo todo com uma ameaça iminente. Roosevelt estava dizendo que a política poderia superar aquele problema, e que naquele sentido não estava acenando com um jogo de tudo ou nada, estilo me sigam ou entraremos em crise. Ele dizia que juntos, através de algum tipo de coesão social, superariam aquele problema específico. Acho que é isto que está faltando hoje. Pensei que você fosse mencionar uma frase de Donald Rumsfeld - “não há o que temer além do desconhecimento dos desconhecidos”. Foi num discurso logo depois de 11 de setembro. Dizia: “Há coisas que sabemos e há coisas que sabemos que não sabemos. E ainda há o desconhecimento dos desconhecidos.” Este é um exemplo muito bom da retorica da política contemporânea. Há coisas que não sabemos, por isto deveríamos confiar no que não sabemos, devemos ir em frente, implicitamente nos diz que devemos concordar com as propostas do governo caso os desconhecimentos desconhecidos se materializem.

Sandra Passarinho - Sacrificar a liberdade em nome da segurança é comum no quotidiano dos brasileiros que vivem nas cidades. O medo deixa marcas visíveis e transforma bairros inteiros em imensas prisões. É quase impossível entrar num prédio ou casa de classe média sem ser observado por uma câmera. Também é difícl; reconhecer alguém num automóvel indevassável, com vidros escuros. Aumenta o número de pessoas que têm carro blindado ao preço de um apartamento: R$ 70 mil, em média. Crianças ricas são proibidas de andar de ônibus por causa dos assaltos e só saem de casa acompanhadas. O cerco de medo vai se fechando. Aqui no Rio de Janeiro, há regiões em que nem a polícia entra - com medo dos traficantes. Em outras, o cidadão só pode votar livremente nestas eleições sob a proteção do Exército. Crianças deixam de freqüentar as aulas quando o tráfico determina. E o comércio muitas vezes é fechado por ordem dos bandidos. Nessas regiões há uma outra lei, paralela, que submete através do medo e do poder das armas.
Para expulsar o tráfico dos morros, a polícia do Rio de Janeiro troca tiros com bandidos e, por descuido, também mata inocentes. Só nos primeiros quatro meses deste ano, morreram mais de quinhentas pessoas vítimas desse fogo cruzado.
Seguranças particulares muitas vezes contribuem para aumentar o medo e a insegurança. Recentemente, na porta de uma boate na Zona Sul do Rio, um rapaz morreu baleado por um policial militar cedido ao Ministério Público para proteger o filho de uma juíza.
Segundo dados da UNESCO, o Brasil é o país com maior taxa de homicídios no mundo. Quarenta e seis mil e seiscentas pessoas assassinadas em 2006: quase todas moradoras das cidades mais violentas.
Mas a violência, muitas vezes, é usada para justificar a manipulação do medo.
Conversamos com o psicanalista, Joel Birman, autor do estudo “Medo e Insegurança como estratégia de poder”.

Joel Birman - Olha, do ponto de vista estritamente psicanalítico, o medo advém de uma experiência básica de desemparo psíquico que todos nós temos, em função do fato de que o homem nasce biologicamente despreparado para vida, para a coordenação do seu corpo. Só que essa espécie de fragilidade biológica, não nos deixa numa condição de nominar completamente esse nosso desamparo originário, digamos assim. De maneira que nós estamos sempre com medo de voltarmos a esse desamparo, que tem sempre no nosso imaginário uma dimensão de que nós podemos perecer ou morrer a qualquer momento em função disso.
Sandra Passarinho - O nosso desamparo pode ser manipulado pelo poder político e daí vem o medo?
JB - Sempre que nós nos encontramos diante de uma situação de crise social, sempre que nós nos encontramos diante do fato de que novos segmentos sociais querem participar, ter maior poder social, uma das estratégias usadas na tradição do Ocidente e no Brasil, em particular, é evocar o medo latente, esse medo do desemparo que vai evidentemente ganhar modulações sociais e culturais específicas. No Brasil, e no Rio de Janeiro em particular, a existência de populações favelizadas, a existência de populações que vivem sob o controle do narcotráfico permitiu, em função desse tipo de medo, que o Estado fizesse vista grossa em relação ao surgimento e ao fortalecimento das milícias. Houve uma espécie de utilização política, de governantes do Rio de Janeiro inclusive, onde essa situação se faz mais aguda, no sentido de amedrontar as pessoas. A solução brasileira para isso é sempre a solução do aumento da repressão, seja militar, ou seja policial. Então, você pode perceber como o medo é um elemento crucial na luta e no combate político. Sempre em função do medo que o poder quando quer fazer avanços substantivos nos seus processos de dominação, ele utiliza esse tipo de estratégia para apavorar as pessoas.
SP - O cidadão do século XXI (21) ele é mais medroso do que o de outros tempos?
JB - Com certeza. O cidadão do século XXI tem mais medo do que o cidadão de outras épocas, exatamente porque vive numa sociedade menos e menos totalizante holística, ele vive numa sociedade cada vez mais individualista, ele não conta mais com a proteção de um Estado que lhe dê governabilidade, que lhe proteja inteiramente. Ele, então, é exposto a perigos e, em última instância, ele tem de contar consigo próprio. Razão pela qual essa metáfora dos cuidados corporais, essa medicalização contemporânea que a gente vive é tão importante porque nós cuidados do nosso corpo na ginastica, da mesma forma como nós temos de andar, nos temos que diminuir a nossa taxa de colesterol, nós temos de fazer check-up a cada seis meses. Quer dizer, é como se nós só contássemos com o nosso corpo. Então, esse nível de experiência de risco é uma experiência eminentemente contemporânea, num nível radical, que não existiu em épocas anteriores. E ela tem se produzido nos últimos trinta, quarenta anos de uma maneira progressiva.

Jorge Pontual - As autoridades manipulam o medo com fins políticos. Mas a relação entre o medo e o poder pode ser mais sutil. Afinal, políticos também sentem medo e transmitem sua insegurança para a sociedade. Faltam líderes com a coragem de Franklin Roosevelt para dizer: “Não temos nada a temer a não ser o próprio medo”.
enviada por Lucília Lopes Silva



14/09/2008 16:53
Transcrição do programa Sem Fronteiras , transmitido pela Globo News, às 00:30 de sexta-feira, que enfocou o tema sobre o Grande Colisor de Hádrons da Cern.

Sílio Boccanera - Uma experiência científica na fronteira do conhecimento, tenta reproduzir em laboratório o instante logo após a criação do mundo - há mais de treze bilhões de anos. É uma tentativa de entender melhor a natureza do Universo.

Sônia Bridi - Metade na Suíça, metade na França: o Sem Fronteiras encontra o Centro Europeu de Pesquisa Nuclear - um lugar onde o impossível acontece.

Tonico Ferreira – O que essa experiência pode desvendar nas leis que regem a Natureza? Essa é uma das perguntas do Sem Fronteiras de hoje, que também se debruça sobre outras questões, até recentemente consideradas impossíveis, mas que podem estar ao nosso alcance.


Sônia Bridi – O acelerador de partículas LHC - o Large Hadron Collider – é uma grande tubulação subterrânea circular de 27 quilômetros, enterrada a cem metros de profundidade, fica parte na França, parte na Suíça, onde passa embaixo da cidade de Genebra, beirando o aeroporto internacional. Ao ligar o aparelho esta semana, os cientistas do CERN – Centro Europeu de Pesquisa Nuclear – começaram um processo de investigação sobre o que ocorreu 13 bilhões de anos atrás, um trilionésimo de segundo após a criação do Universo – o chamado Big Bang.

O aparelho tenta recriar condições parecidas as daquele momento original. Só que dessa vez, quatro gigantescos detectores estão prontos para registrar o fenômeno. Eles devem captar a formação de certas sub-partículas durante a colisão de prótons, uma das partículas que formam o átomo. O grande prêmio é conseguir ver o "bóson de Higgs", em nome do cientista escocês que teorizou sua existência, mas que ninguém tem certeza se de fato existe.

André Sznajder (físico UFRJ/CERN) - A partícula de Higgs está ligada com a origem da matéria no Universo. O Higgs é a partícula responsável pela massa da matéria, ou seja, pela atração gravitacional de todos os dentes que possuem massa no Universo. Então, com isso, se a gente conseguir realmente descobrir o Higgs, a gente vai entender, parte em parte, como se deu origem do Universo.

Sonia Bridi - Chegou até a haver um processo para impedir esse experimento, alegando que poderia criar um buraco negro e destruir o Universo.

AS - Esse processo que a gente vai criar aqui, num laboratório, de forma controlada, eles ocorrem o tempo todo, em escalas de energia até muito maiores do que a gente é capaz de realizar aqui no laboratório, numa freqüência muito maior também na Natureza e, certamente, o Universo está aí, há bilhões de anos e não foi destruído até hoje. Não é o nosso pequeno experimento que vai ser capaz de fazer isso.

SB - Se o teste aqui comprovar que a colisão de prótons produz mesmo a tal sub-partícula, os físicos terão respostas a questões que soam quase filosóficas. Qual a origem de tudo que conhecemos? Como os corpos adquirem massa, portanto, viram matéria como conhecemos? Não é à toa que o bóson de Higgs é chamado de a "partícula de Deus": nela reside o segredo da Criação.
Depois de ligada a máquina esta semana, o acelerador vai ser calibrado, a potência vai aumentar aos poucos até que dois feixes de prótons cheguem dentro do túnel a uma velocidade próxima a da luz. Guiados por magnetismo e movendo-se em direções opostas, darão 11 mil voltas por segundo no tubo circular de 27 km até se chocarem. Como a energia necessária para o teste é imensa e energia provoca calor que, por sua vez consome energia, o túnel vem sendo resfriado durante dois anos até chegar à temperatura atual de 271,3 graus Celsius negativos - quase o chamado "zero absoluto". O túnel do LHC é o lugar mais vazio e mais frio do Universo.

O processo será repetido constantemente e nada será visível de imediato. Cientistas de vários países terão de estudar os resultados com calma e analisá-los até chegar a uma conclusão. É uma gigantesca experiência de ciência pura, um esforço de avançar o conhecimento de Física teórica, que, se der certo, vai responder a velhas perguntas sobre a origem do Universo, mudar nossos conceitos religiosos e científicos e nos deixar livres para ter outras dúvidas, formular outras perguntas, criar outro sentido de fé.


O Sem Fronteiras encontrou no Imperial College, em Londres, o veterano cientista e professor Tom Kibble, um dos muitos físicos no mundo envolvidos e entusiasmados com o projeto do CERN.


Sílio Boccanera - A teoria por trás desta experiência é que se pode encontrar uma certa partícula - que recebeu o nome de seu colega inglês: Peter Higgs. Se o experimento realmente confirmar a existência das partículas de Higgs, levando a uma compreensão melhor de massa, como isso vai nos ajudar a compreender melhor o universo como um todo?

Tom Kibble - A idéia principal relacionada a essa partícula em particular nem é tanto ela, mas é, num certo sentido, a do tijolo final numa estrutura grande. O padrão da física de partículas múltiplas que foi construído durante muitos anos é um modelo que unifica, ou incorpora, a maioria das interações fundamentais que as partículas têm. A gravidade não está incluída nesse estágio. Mas todas as outras - a força nuclear forte, a força nuclear fraca, forças eletromagnéticas. Sabemos, essencialmente, quais partículas fazem a mediação entre todas essas diferentes coisas. E como elas interagem umas com as outras. Mas a teoria só funciona se esse elemento, ou algo que realiza o mesmo trabalho, existir. Portanto, nós não sabemos com certeza se existe a partícula Higgs como tal. Mas se ela não existe, deve existir alguma outra coisa muito semelhante.

SB - Um dos nomes que esse experimento, ou, mais especificamente, o próprio acelerador ganhou, foi "máquina do gênese". Ao entender o que aconteceu naquele exato momento, pouco depois do Big Bang, há 14 bilhões de anos, você teria uma noção melhor de como o universo é hoje. Mas você também espera ter uma noção melhor sobre o futuro do Universo?

TK - Todas essas coisas estão ligadas. Uma das coisas muito interessantes que estão acontecendo é que a Teoria do Muito Grande, na cosmologia, e a Teoria do Muito Pequeno, na física de partículas, estão se juntando. E existe uma interação tremenda entre ambas. E, certamente, ao explorar essa interação de partículas de energia alta, nós vamos aprender mais sobre o universo também numa grande escala.

SB - Falando sobre o futuro do Universo: para onde ele vai? Sabemos que está se expandindo, mas para onde está indo? Vai terminar numa explosão?

TK - Para ser franco, não sabemos a resposta para isso ainda. No momento, parece que a expansão está se acelerando. E se isso continuar - e não há razão para pensar que não vá continuar -, então parece que o Universo vai se desfazer gradualmente. E, no fim todas as galáxias ficarão soltas, sozinhas.

SB - Um dos mistérios da Física é que as leis que se aplicam a grandes objetos (planetas, estrelas, cometas) não se aplicam a pequenos objetos, ao mundo subatômico. Noutras palavras, a gravidade e a relatividade não se dão muito bem com a mecânica quântica. Esse experimento vai ajudar nesta reconciliação?

TK - Não acho que seja possível responder diretamente a essa pergunta. Mas ele pode, de algum modo, nos levar em direção a isso. Uma das coisas que estão sendo investigadas, além das partículas de Higgs, é o que chamamos de "parceiros supersimétricos". A Teoria Fundamental em que as pessoas gostam de pensar agora é a melhor candidata para unificar a gravidade com todas as outras interações...

SB - A chamada "Teoria do Tudo"...

TK - Sim. Não é um nome muito bom, mas isso é o que foi chamado de Teoria das Cordas, ou agora Teoria M, é um novo nome agradável para ela, se você prefere. Isso envolve tipos particulares de simetria - a supersimetria - que só funciona adequadamente se você tiver essa simetria. E essa simetria prevê, entre outras coisas, que todo tipo de partícula tem uma superpartícula correspondente, um superparceiro, que, em termos gerais, é mais pesado. E, de algum modo, similar; de algum modo, diferente. Mas, se conseguíssemos encontrar alguns desses parceiros, então eles nos diriam muito sobre como exatamente essas coisas funcionam.

SB - Talvez trabalhar em direção à reconciliação entre a relatividade, gravidade e mecânica quântica.

TK - Poderia ser um passo importante nessa direção.

SB - Einstein levou os últimos anos da vida dele tentando reconciliar isso.

TK - E ele não teve sucesso. Mas muitas outras pessoas estão tentando outras maneiras de fazer trabalho semelhante.

SB - Um choque e tanto: a gravidade não se aplica quando se lida com o átomo.

TK - Mas a gravidade se aplica.

SB - Mas não com as mesmas leis...

TK - Nós acreditamos que, fundamentalmente, as mesmas leis se aplicam a tudo. Só que ainda não encontramos exatamente que leis fundamentais são essas.

Tonico Ferreira - Transmitir ordens para uma máquina com a força do pensamento, criar seres híbridos entre homens e máquinas: não há limites para a ciência, a não ser pelo custo altíssimo das máquinas. O LHC, por exemplo, custou 3 bilhões de Euros. E a próxima máquina, quanto custará? Essa é uma das perguntas que se faz a Luiz Nunes de Oliveira, da Faculdade de Física da USP/São Carlos, em conversa com o Sem Fronteiras. Nunes aposta na nanotecnologia como o ramo mais promissor da ciência.

Luiz Nunes de Oliveira - Com a nanotecnologia nós poderemos simular características que hoje nós só encontramos em seres vivos. Isso não deve demorar muito. No prazo de 20, talvez 30 anos, você poderá ter, digamos, uma camisa que quando se rasgue se solde por si mesma, assim como a pele faz. Então, tudo que a Biologia é capaz de fazer hoje a nanotecnologia deve ser capaz de imitar num prazo, eu diria, de uns 20, 30 anos.

Tonico Ferreira - Teria outros exemplos?

LNO - Pois não. Uma outra grande virtude da Biologia é a capacidade de auto-replicação. A nanotecnologia também deve ser capaz disso, de fazer isso. De maneira que produtos podem vir a se replicar por si mesmos; e já estão aparecendo exemplos disso em escala muito pequena, em escala de laboratório, mas são experiências que já são facilmente comprovadas e são perfeitamente reprodutíveis.

TF - A nanotecnologia vai modificar as nossas vidas?

LNO - A vai, com certeza, porque no futuro nós vamos chegar a uma situação em que nós sabemos mais o que é Biologia, o que é Física e o que é Química. Todas essas ciências vão se misturar. E provavelmente a computação vai entrar nessa dança também. Então, nós vamos passar por um mundo em que os materiais serão completamente diferentes daqueles que estamos acostumados e vão ter propriedades notáveis. Se você pensar bem, você vai ver que o que mudou mais no mundo, no espaço das nossas vidas foi a existência de novos materiais. Quem possibilitou isso foi a Química. E no futuro quem vai possibilitar todas as mudanças vai ser a Química, ligada com a Biologia e mais um pouquinho de Física e computação.

TF - E em cima das estruturas atômicas e moleculares?

LNO - Em cima das estruturas atômicas e moleculares. Essa é uma história que é de fato muito interessante, do ponto de vista da evolução da ciência. Veja: em 1873, aconteceu uma coisa que mudou a face do mundo. Foi nesse ano que o (Louis) Pasteur descobriu que o micróbio era capaz de matar um elefante. Nessa época ninguém imaginava que uma coisa dessas fosse possível e apareceu como um choque para toda a humanidade. Isso teve um impacto tremendo sobre o pensamento humano e mostrou para as pessoas que o mundo microscópico é muito mais importante do que o mundo macroscópico - para a vida e para tudo que acontece ao nosso redor.

TF - Mas nós ainda não temos um conhecimento profundo dessa parte mais interna da estrutura da matéria?

LNO - Exato. Essa é a questão mais importante. Porque, uma vez que o Pasteur descobriu isso, no prazo de 20 anos, a Física se lançou numa busca do mundo microscópico e em 1897 já foi descoberto o electrón; depois veio o núcleo atômico e toda essa estrutura que a gente conhece. Mas o foco, então, ficou sendo nas coisas cada vez menores e a abertura do novo acelerador no CERN é uma continuação dessa tendência. Mas nesse processo ficou um buraco. Esse buraco está entre o que acontece na escala atômica e o que acontece no mundo macroscópico ou semi-macroscópico. Então, houve uma região que ficou cinzenta perdida nesse processo e que está sendo ocupado pela ciência só agora. Essa região é onde trabalha a nanotecnologia.

Jorge Pontual - Coisas que só se via em filmes de ficção científica, como a teleportagem, naves interestelares e tantas outras fantasias podem estar mais perto de acontecer do que se imagina. O Sem Fronteiras conversou em Nova Iorque com o físico americano, Michio Kaku, um dos fundadores da Teoria das Cordas, que publicou recentemente o livro A Física do Impossível (Physics of the Impossible).


Michio Kaku - Sou físico e menciono uma lista de todas as tecnologias impossíveis da ficção científica: invisibilidade, teletransporte, viagem no tempo, naves espaciais. E começo a perceber que nós, os físicos, acreditamos que quase todas essas tecnologias são possíveis. Não hoje, mas possíveis em décadas, séculos. Para viagens no tempo, até milênios. Mas elas são consistentes com as leis conhecidas da Física. Mas elas são consistentes com as leis conhecidas da Física. Então, quando você vê os filmes, Guerras nas Estrelas, quando você vê o Exterminador do Futuro, E.T., note que a maior parte do que você na tela do cinema é possível, não viola as leis da Física.

JP - Mas quais são exatamente, as previsões da ficção científica que poderiam se tornar realidade?

MK - Há dois anos, nós, físicos, fizemos história ao mostrar que você pode pegar um objeto e torná-lo invisível, ao menos para a radiação de microondas. Nós físicos costumávamos acreditar que a invisibilidade era impossível e, no entanto, nós conseguimos! E há poucos meses, no Instituto de Tecnologia da Califórnia e na Alemanha, mostraram que a luz visível - a luz vermelha e a luz verde também consegue fazer curva, de um modo consistente com a invisibilidade. Em poucas décadas podemos ser capazes de criar algo como uma capa de invisibilidade. Como Harry Potter, veja só, estamos perto da invisibilidade.

JP - O que mais?

MK - Teletransporte. Quando você assiste a Jornada nas Estrelas e vê o capitão Kirk sendo zapeado pela estrada, as pessoas dizem: "Ora, isso é ficção científica"- o que é de fato. Mas agora nós podemos teletransportar partículas de luz. Átomos. Átomos de césio, átomos de berilo. Não apenas através do quarto; mas por 160 km - esse é o recorde mundial. A seguir, o espaço sideral. Nós vamos teletransportar partículas de luz até o ônibus espacial, para provar que pode ser feito. E depois de 2020, quando voltarmos à Lua, estaremos teletransportando partículas até a Lua. Isso é a realidade. Essa é a Física de hoje, não é ficção científica.

JP - Mas as pessoas não se importam com partículas. Elas querem ser teletransportadas para casa...

MK - Isso é um problema. Nós somos construídos por cerca de 50 trilhões de células. Em poucas décadas, vamos teletransportar a primeira molécula de DNA. Vamos teletransportar um vírus, dentro de poucas décadas. Mas um ser humano está fora de nosso alcance.

JP - E quanto à viagem às estrelas, seria possível? Nós achamos que naves espaciais serão possíveis neste século. Diferentes projetos baseados em fusão, baseados em energia nuclear, baseados no raio laser foram propostos para que se vá às estrelas. Meu favorito é usar nanochips microscópicos, do tamanho de uma molécula, ou naves do tamanho de uma agulha. Você manda milhões delas, não apenas uma, mas milhões para a estrela mais próxima. E talvez umas poucas centenas cheguem lá. São chips microscópicos. Não custam tanto dinheiro assim. Você pode mandá-los bilhões deles para as estrelas. E a Nasa já está financiando pesquisas preliminares em nanochips.

JP - Os europeus inauguram o Grande Colisor de Hádrons, um acelerador de partículas que talvez confirme coisas de sua teoria - Teoria das Supercordas. O que isso significa?

MK - Nós queremos uma teoria que nos permita ler a mente de Deus. Essas são as palavras de Albert Einstein. Ele diz: "Não me importo com isso, não me importo com aquilo. Eu quero ler os pensamentos de Deus. O que ele estava pensando quando criou o universo em um Big Bang?" É disso que a Teoria das Cordas ou das Supercordas trata: ler a mente de Deus. Quais eram seus pensamentos quando Ele criou o Universo. A Bíblia diz: "Louvai a Deus com brados de júbilo, todas as terras." A música é um dos temas recorrentes da Bíblia. Essa é a linguagem da Teoria das Cordas. Nós teóricos da Teoria das Cordas acreditamos que a música se manifesta em termos de átomos. Que o universo que vemos ao nosso redor corresponde a melodias de uma corda que vibra. E nós queremos ser capazes de entender qual era o pensamento de Deus quando ele fez o Universo. É disso que trata a Teoria das Cordas.

JP - O senhor fala do Universo, mas na verdade acredita em um número infinito de Universos, o "Multiverso". O que é isso?

MK - Nossos satélites que hoje orbitam em torno da Terra nós deram imagens do começo do Big Bang. Nós temos a explosão, imagens da própria explosão. Esses dados, no entanto, são consistentes com a idéia de que a explosão poderia acontecer de novo. E de novo, e de novo. Mesmo enquanto falamos. O Big Bang provavelmente acontece o tempo todo. Isso cria um Multiverso de Universos. Nosso Universo é como uma bolha de sabão. Nós vivemos na superfície da bolha de sabão, que está se expandindo. Mas agora acreditamos que existem outras bolhas de sabão lá fora. Outras bolhas flutuando em uma arena maior. E nós chamamos isso de "Multiverso". Agora, a maior parte desses universos é de universos mortos. Eles são constituídos de oceanos de elétrons, oceanos de raios cósmicos, pouco interessante. Não há átomos. Nosso universo poderia ser algo especial, não sabemos. Temos átomos estáveis, vida, temos consistência em nosso Universo, não sabemos. Mas a teoria parece indicar que existem outros Universos lá fora.
enviada por Lucília Lopes Silva






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